quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Éramos um trio

Nossa diferença de idade era pouca. Minha irmã um ano mais velha e minha prima 2 anos mais nova. Morávamos praticamente na mesma casa. Minha tia em baixo, com minha avó paterna Deolinda meu tio e minha prima,(só depois meu primo também). Em cima meus pais, minha irmã, eu e minha avó materna Dalila. O quintal pertencia às duas casas. Não era muito grande mas cabia todas as nossas brincadeiras. Bicicleta, patins, bola, bonecas. Essas, tinham um lugar mais especial. Eu e minha prima adorávamos fazer cabana em cima de uma laje que cobria o tanque da casa de baixo. Ficávamos a tarde toda la em cima brincando. Tinha também um galinheiro e uma pequena horta com couve e outras hortaliças plantados pela minha avó Deolinda, que também cuidava das galinhas.
Nossas vidas foram compartilhadas durante toda a nossa infância e adolescência.
Crescemos, tivemos nossos filhos que brincaram no quintal que descobriram o telhadinho pra soltar pipa, que não conheceram mais o galinheiro nem a horta cheia de joaninhas nas couves, mas que inventaram um mini golf, uma cesta de basquete e uma rampa de skate.
Mas o quintal de repente ficou vazio. Não tem som de bola, de risos, de patins, de musica. Ficou cinza e triste. Literalmente cinza porque o chão, antes pintado de vermelho recebeu nova tinta.
Tenho um outro quintal hoje onde recebo meus netos mas o som não é o mesmo. É alegre também mas diferente.O primeiro era dos meus pais, agora é o meu.

Orfã

Não sei se consigo terminar esse texto. Já tentei outras vezes mas os olhos embaçam, a mão para e a cabeça trava. Chorar é fácil pra mim. Não que eu queira mas as lágrimas brotam como uma nascente.
Já fazem dois anos que minha mãe morreu. Já não tinha meu pai há seis anos. Fiquei orfã. Com cinquenta e tal falar em ficar orfã é estranho, mas o que senti ao perceber que não tinha mais os dois foi algo muito ruim. Um vazio sem fim, uma dor!
A cabeça não parava, veio tudo a tona. Coisas boas, coisas tristes,o que podia ter feito,o que não devia ter feito. A vontade de dizer tudo que não foi dito e querer ser escutada. A vontade de apagar o que disse sem pensar e fazer o que não foi feito.
Aos poucos percebi que fiz tudo, disse tudo. Que amei os dois com toda a sinceridade e intensidade de uma filha agradecida e orgulhosa dos pais que teve.Que não podia ter sido diferente e foi tudo muito bom. Só faria diferente se fosse para tê-los ainda comigo.Mas...não sou eu quem decide.
Muitas vezes sonho com tempos já vividos e vivos dentro de mim. Queria que fosse como no livro A Cabana, um encontro com eles. Porque o pior, é a vontade que permanece e acho que não acaba nunca,de abraçar, de acariciar, de sentir mão na mão, pele com pele.
Ainda choro como agora. Paro, respiro, não molho o teclado e a cabeça ferve.