quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As Oneidetes

Por volta dos 10 anos comecei a fazer aulas de balet clássico, não porque estava na moda mas porque queria ser bailarina. Algumas alunas da minha turma prestaram concurso para o Teatro Municipal e seguiram a carreira, mas um pé torcido me impediu de fazer a prova. Na verdade não foi bem assim. O problema no pé foi o pretexto para meu pai me proibir de continuar no balet. Mas, deixa pra lá.

Quando fiz 18 anos, mesmo sem “autorização”, ingressei na escola de dança moderna do clube Ginástico Português.
A dança moderna apareceu no início do século XX e seus precursores procuraram maneiras mais ousadas e pessoais de expressar idéias através da dança. Entre os pioneiros do movimento está a americana Isadora Duncan. Com os pés nus e sem tutu, ela reivindicava uma dança livre, completamente contra os padrões clássicos.
No Brasil, Nina Verchinina foi uma das principais figuras no desenvolvimento da dança moderna. Foi uma referência para bailarinos nas décadas de 1960 e 1970.
Oneide Ribas, uma de suas discípulas,foi quem fez com que me apaixonasse por essa dança. Expressar as emoções através dos movimentos é um dom dos bons coreógrafos, ela era mestra nisso. Cabia a nós bailarinos entender e executar bem esses movimentos.
Lembro do meu primeiro solo. Um balet dramático bem estilo Nina Verchini.Chamavasse O Julgamento.Mas um detalhe fez desse solo mais especial. Dancei grávida de três meses do meu primeiro filho.

Apesar de não sermos um grupo de profissionais fazíamos várias apresentações por ano. Em clubes, escolas, teatros e festivais. Às vezes viajávamos para apresentações em outras cidades. Foi numa dessas viajens, que nos batizamos de As Oneidetes.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Amizade não tem fronteira

Quando morei em recife trabalhava no Shopping e todos os dias quando o banco abria, eu estava lá, fazendo os depósitos da loja. Observei logo que uma das filas andava sempre mais rápida. Naquela época, acho que 1985, não existia fila única, cada caixa tinha a sua fila. A baixinha de cabelo enrolado era danada!
Como boa carioca, puxei papo e me apresentei. No dia seguinte já não entrei mais em fila, deixava tudo com ela e depois ia buscar. Confesso que quando a fila não estava muito grande até esperava para bater um papo.Descobrimos que tínhamos muitas coisas em comum. Dois filhos da mesma idade, gostávamos de cerveja, de boa música e de reunir a criançada.
Os dois dela juntaram-se aos dois meus e aos três da Zé formando uma turma divertida.
E quem é Zé?
Bom, a caixa do banco era uma paraibana , a Val e Zé, uma angolana que morava no mesmo prédio que eu e que me foi apresentada pelos filhos.Criança não precisa de apresentação, ficaram amigos dos meus no dia que mudamos para là.Tinha certeza que seriamos grandes amigas.Conversávamos horas como se já nos conhecêssemos há muito tempo.
Aprendi com a Val a gostar de Vital Farias e Elomar.Que multidão é só muita gente junta, igual a gente.Que dançar forró e frevo é tão bom quanto sambar.
Com a Zé, que Led Zeppelin pode ser melhor que Beatles dependendo do estado de espírito.Que África também é terra de branco e que por mais que eu quisesse não saberia medir o sofrimento de quem teve que fugir do seu país por isso.
Uma nordestina e uma angolana. Duas pessoas incríveis que marcaram a minha vida.Val a mais alegre,divertida e companheira. Zé a mais doce, sincera e leal . Mas principalmente duas grandes amigas de terras distantes que encontrei um dia e ficaram para sempre, porque amizade não tem fronteira.

sábado, 4 de outubro de 2008

Cheiro da Infância

Acordei com o barulho da chuva, do vento agitando as folhas das palmeiras e do mar. Tudo indicava que a noite seria de muita água.
De repente lembrei que as roupas estavam no varal. Não dava para descer naquele temporal.
O jeito foi esperar o dia seguinte.
Amanheceu e ainda chovia, mas pouco. Peguei um cesto e fui recolher as roupas. Estavam encharcadas! Quando elas permanecem molhadas por muito tempo ficam com um cheiro desagradável que detesto. Mas me dei conta, que não era esse o cheiro que estava sentindo. Era de algum lugar.
Não era ruim como de mofo. Era de umidade, misturado com cloro, mas principalmente, de uma lembrança de muito tempo atrás.
Eu, minha irmã e minha prima aprendemos a nadar naquela piscina. Íamos com meus pais a pé até o clube. De chinelo e uma bolsinha na mão com toalha, pente, touca e maiô. Na entrada do clube tinha uma roleta. Mostrávamos as carteirinhas e seguíamos para o vestuário. Minha mãe nos deixava na porta e essa é a parte não muito boa. Eu tinha medo de entrar ali.
Tínhamos que descer uma escada de cimento que fazia uma curva ficando cada vez mais escura e parecia não ter fim. Chegávamos a uma porta de grade, ao lado de uma janelinha mínima, de onde saia uma voz pedindo a carteirinha. Sem sequer ver o rosto da dona daquela voz, entregávamos a carteira e a porta se abria. Geralmente nessa hora saíamos correndo.
O vestuário era grande, mas pouco iluminado. Do lado direito, um grande banco com um estrado de madeira no chão em frente a ele, para a água escorrer. Na parede, atrás de banco, uma série de ganchos presos na parede para pendurar bolsas ou roupas. Não tinha armário. Do outro lado ficavam os banheiros e os boxes de banho sem porta.
Trocávamos de roupa, guardávamos tudo na bolsa e pendurávamos nos ganchos.
Finalmente iríamos para a piscina, mas faltava a pior parte. Passar naquele quadrado de azulejo branco meio encardido cheio de água, que deveria servir para lavar os pés, mas na verdade eu tinha certeza, pelo menos o meu pé a água sujava. Depois da água, uma escada muito estreita que só passava uma pessoa e apertada. Ao contrario da outra, essa nós tínhamos que subir e por isso, para minha alegria, ia ficando cada vez mais clara. Outro quadradinho com água, uma outra porta com grade, que eu rezava para estar aberta e finalmente, a piscina.Ufa!
Logo eu avistava os meus pais debruçados na grade do outro lado.
Não sei porque senti o cheiro desse lugar, não sei porque me deu vontade de escrever sobre ele. Mas sei que é muito bom sentir o CHEIRO DA INFANCIA

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Picolé

A primeira escola das crianças em Recife chamava-se Immanuel Kant, um filósofo alemão cujo método se baseava na crítica. Foi professor por mais de 15 anos dando aulas de ciência, matemátia e de todos os ramos da filosofia.Tudo a ver com nome de escola

Gostamos de cara .Tinha do jardim até a quarta série. As salas eram arejadas ,o pátio seguro e as professoras excelentes.Tinha também uma pequena piscina que servia tanto para recreação como para aulas de natação.

Julia tinha quatro anos e era a primeira vez que recebia esse tipo de instrução.Desde cedo, acho que com dois anos, ja nadava vários estilos:cachorrinho,golfinho,tartaruga.Nomes dados por ela claro.Sempre foi uma criança levada e destemida.Andou com 10 meses,aprendeu sozinha a andar de bicicleta aos cinco anos e água, era com ela mesmo.Começou colocando a boia de braço nos dois braços. Depois em um braço e quando eu vi,estava solta sem nada.

Voltando as aulas de natação,marcaram um campeonato uma semana após ela ingressar. Julia quis participar .O professor achava que ela não tinha condições de competir com as crianças que já sabiam nadar com certo estilo ,nado crawl. Para incentivá-la e vendo tanta insistência da parte dela, permitiram sua entrada na competição. Eram três crianças bem maiores e Julia no cantinho da piscina meio espremida até.Quem chegou primeiro? Ora,Julia. Num salto perfeito foi num fólego só até a outra borda da piscina, que devia ter uns 6 metros. Deixou todos de boca aberta e sem saber o que fazer. Quem levaria o troféu?

Bom, isso não importava muito para ela.Deram um jeito de premia-la. Não ganhou um troféu daqueles que colocamos numa estante meio escondido ou no armário.Seu prêmio foi algo que saboreou feliz da vida na mesma hora, deixando os outros concorrentes com água na boca.

Um deliciosa PICOLÈ

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

14 Bis

Tínhamos pouco tempo de Recife. Eu e meus filhos sozinhos numa cidade diferente! Novo trabalho, escola nova, novos amigos.
Estávamos bem, mas um pouco presos por estar sem um carro.
Tinha vendido minha Brasília no Rio e o dinheiro era pouco. Acabei comprando outra Brasília, mais velha. Bem que Gustavo me disse na sabedoria de seus sete aninhos: Mãe não compra esse carro! Mas eu comprei e é claro fiquei pouco tempo com ele.
Depois de muitos problemas, ele resolveu sem mais nem menos sair da vaga da garagem do prédio e bater no muro. Vendi.
Foi então que entrou nas nossas vidas o 14 BIS.
Ele nos levou a inúmeras aventuras pelo nordeste. Valente e atrevido nunca nos deixou em apuros. Certo dia, levei sete crianças mais duas bicicletas para o Parque da Jaqueira. Íamos rindo de tudo naquele aperto.
E nas enchentes! Os moleques ficavam na calçada esperando os carros enguiçarem para empurrarem. Parei, olhei a rua alagada e lá fomos nós. A água subiu como uma onda por cima do capô chegando a cobrir metade do vidro da frente. Mas 14 BIS não parou. Atravessamos, e os meninos ficaram sem os trocados que estavam certos que iriam receber.
Outra vez vínhamos de Porto de Galinhas. A estrada naquela época era barro puro e quando chovia ninguém passava. A alternativa era um estradinha de areia que margeava a praia e entrava pela mata. Eram três carros, eu no meio para ser vista, caso tivesse algum problema.Eu viajava com as crianças e meus amigos tinham cuidado comigo. Para passar naquela estrada o segredo era não parar de jeito nenhum. Se isso acontecesse o carro atolaria. Tinha que passar no embalo.Era preciso um bom motorista e um carro possante. O bom motorista, era eu claro e o carro possante ............Bom, eu tinha 14BIS.
As crianças de olhos abertos caladas. Eu, atenta, firme no volante e rezando para que tudo desse certo.
Em casa,agradeci a Deus por estarmos bem.
Eu, meus filhotes e o FIAT 147 placa RJ 1414 batizado carinhosamente por uma grande amiga de 14 BIS.