sábado, 4 de outubro de 2008

Cheiro da Infância

Acordei com o barulho da chuva, do vento agitando as folhas das palmeiras e do mar. Tudo indicava que a noite seria de muita água.
De repente lembrei que as roupas estavam no varal. Não dava para descer naquele temporal.
O jeito foi esperar o dia seguinte.
Amanheceu e ainda chovia, mas pouco. Peguei um cesto e fui recolher as roupas. Estavam encharcadas! Quando elas permanecem molhadas por muito tempo ficam com um cheiro desagradável que detesto. Mas me dei conta, que não era esse o cheiro que estava sentindo. Era de algum lugar.
Não era ruim como de mofo. Era de umidade, misturado com cloro, mas principalmente, de uma lembrança de muito tempo atrás.
Eu, minha irmã e minha prima aprendemos a nadar naquela piscina. Íamos com meus pais a pé até o clube. De chinelo e uma bolsinha na mão com toalha, pente, touca e maiô. Na entrada do clube tinha uma roleta. Mostrávamos as carteirinhas e seguíamos para o vestuário. Minha mãe nos deixava na porta e essa é a parte não muito boa. Eu tinha medo de entrar ali.
Tínhamos que descer uma escada de cimento que fazia uma curva ficando cada vez mais escura e parecia não ter fim. Chegávamos a uma porta de grade, ao lado de uma janelinha mínima, de onde saia uma voz pedindo a carteirinha. Sem sequer ver o rosto da dona daquela voz, entregávamos a carteira e a porta se abria. Geralmente nessa hora saíamos correndo.
O vestuário era grande, mas pouco iluminado. Do lado direito, um grande banco com um estrado de madeira no chão em frente a ele, para a água escorrer. Na parede, atrás de banco, uma série de ganchos presos na parede para pendurar bolsas ou roupas. Não tinha armário. Do outro lado ficavam os banheiros e os boxes de banho sem porta.
Trocávamos de roupa, guardávamos tudo na bolsa e pendurávamos nos ganchos.
Finalmente iríamos para a piscina, mas faltava a pior parte. Passar naquele quadrado de azulejo branco meio encardido cheio de água, que deveria servir para lavar os pés, mas na verdade eu tinha certeza, pelo menos o meu pé a água sujava. Depois da água, uma escada muito estreita que só passava uma pessoa e apertada. Ao contrario da outra, essa nós tínhamos que subir e por isso, para minha alegria, ia ficando cada vez mais clara. Outro quadradinho com água, uma outra porta com grade, que eu rezava para estar aberta e finalmente, a piscina.Ufa!
Logo eu avistava os meus pais debruçados na grade do outro lado.
Não sei porque senti o cheiro desse lugar, não sei porque me deu vontade de escrever sobre ele. Mas sei que é muito bom sentir o CHEIRO DA INFANCIA

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